sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Enquete: O que você quer ver no Urbi et Orbi?

Foi finalizada em setembro de 2009 a enquete "O que você quer ver no Urbi et Orbi?", com o objetivo de mapear junto aos nossos leitores as preferências de conteúdo em nosso blog.


Entre os 16 votantes, notou-se uma forte preferência por análises e ensaios referentes a temas de RI (9 votos/56%), enquanto que textos sobre o analista internacional despertam o interesse de 18% (3 votantes) dos que participaram da enquete. A divulgação de eventos acadêmicos e profissionais e a sugestão de periódicos de RI vêm logo em seguida, com 12% e 6%, respectivamente. Por último, um leitor (6%) manifestou interesse em outros temas.

De agora em diante, procuraremos gerar conteúdo cada vez mais de acordo com os interesses dos nossos leitores no Urbi et Orbi. Sugestões e comentários são super bem-vindos!

A próxima enquete perguntará: "Que tema(s) das Relações Internacionais mais lhe interessa(m)?". Com isso, queremos saber os seus interesses temáticos dentro do estudo de RI.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Os "Estados fracassados" e a segurança nacional do Brasil



Os ataques de piratas a embarcações de diversas nacionalidades na costa da Somália, a ressurgência do Talibã no Afeganistão e no Paquistão e a atuação da força de paz das Nações Unidas no Haiti são temas que frequentam os noticiários internacionais dos principais veículos de imprensa do mundo. Todos eles têm mais um ponto em comum: são as mais recentes manifestações do processo de fragilização estatal, redundando eventualmente no surgimento de Estados fracassados.


O fenômeno dos Estados fracassados passou a receber atenção da academia em meados dos anos 1980, com o artigo Why Africa’s Weak States Persist: the Empirical and the Juridical in Statehood (1982) e o livro Quasi-states: sovereignty, international relations and the Third World (1990), ambos de autoria de Robert Jackson, seguidos do artigo Saving failed states (1992), de Gerald Helman e Steven Ratner (ALEXANDRINO, 2008, p.1).


O fim da Guerra Fria agravou a problemática em torno dos Estados fracassados, por uma série de fatores: muitos Estados deixaram de ter a sua economia e seu aparato de segurança financiados por uma das duas superpotências; a legitimidade de muitos deles acabou sendo erodida devido à sua incapacidade de solucionar problemas como a miséria, o desemprego e a criminalidade; e os anos 1990 viram a ascensão (ou o recrudescimento) de rivalidades étnicas e de movimentos separatistas que não existiam ou estavam suspensos durante a Guerra Fria, fazendo com que os alinhamentos políticos deixassem de se pautar em termos ideológicos (como ocorria na Guerra Fria) e passassem a adquirir um matiz predominantemente étnico-nacionalista (QUADROS, p.85 in PENNAFORTE, 2008).


Ademais, os profundos deslocamentos geopolíticos ocorridos na época representaram a quarta onda de criação de Estados no sistema internacional nos últimos duzentos anos (CARMENT, 2003, p.411) . Com efeito, mais de vinte Estados foram criados na Europa Oriental e na Ásia, muitos deles sem qualquer precedente histórico, deixando a impressão de que a autodeterminação inesperadamente “caiu no colo” de diversos povos, conforme observa de forma perspicaz Michael Ignatieff (apud CARMENT, 2003, p.407): “[…] huge sections of the world’s population have won the right of self determination on the cruelest possible terms: they have been simply left to fend for themselves. Not surprisingly, their nation-states are collapsing” .


Durante os anos 1990, o fracasso de Estados era considerado predominantemente como um tema humanitário, pois estava relacionado com problemas como a escassez de alimentos, a proliferação de doenças e o crescimento no número de refugiados, motivando intervenções da comunidade internacional em locais como a Somália (a partir de 1992), o Haiti (a partir de 1993) e Serra Leoa (a partir de 1998). Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos adicionaram uma dimensão securitária à questão dos Estados fracassados, que passou a se tornar extremamente importante na agenda internacional do início do século XXI. A partir desse momento, o fracasso estatal passou a ser apontado como o foco de atividades desestabilizadoras para o sistema internacional, como o terrorismo, a proliferação de armas de destruição em massa, o narcotráfico e a atuação de máfias e organizações criminosas. Diante disso, a chamada Doutrina Bush identificou os Estados fracassados como a principal ameaça aos EUA, pois, na visão do governo norte-americano, eles eram considerados como o ambiente ideal para o desenvolvimento de redes terroristas.


Em 2002, a National Security Strategy, documento que delineia as metas estratégicas do governo norte-americano, declarou de forma inequívoca que a “America is now threatened less by conquering states than we are by failing ones. We are menaced less by fleets and armies than by catastrophic technologies in the hands of the embittered few” (THE WHITE HOUSE, 2002, p.1). Com efeito, a tendência apontada por Washington constitui a essência do fenômeno dos Estados fracassados, que reside em um fato incomum na história do sistema internacional: a segurança coletiva deixou de ser ameaçada pela rivalidade entre Estados com excesso de poder, passando a ser posta em xeque pelo vácuo de poder em determinados Estados (QUADROS, p.85 in PENNAFORTE, 2008). Em outras palavras, enquanto a maior parte da história das relações internacionais foi a história de conflitos entre Estados com projetos expansionistas concorrentes, hoje se percebe que o fracasso estatal (entendido aqui como a persistência de Estados sem meios de reproduzir as condições para a sua própria sobrevivência) também pode trazer instabilidade no âmbito local, regional e global.


[...]


Também deve ser apontada a escassez de análises da academia brasileira sobre o tema; e os poucos estudos que já existem adotam abordagens diferentes. Gisele Novas do Nascimento (2008, p.149-162) disserta sobre a possibilidade de organizações terroristas adquirirem armas de destruição em massa a partir de Estados fracassados, mas restringe sua análise ao mundo muçulmano. Carlos Alberto Pinto Silva (2007) relaciona a existência dos Estados fracassados com a ascensão de conflitos assimétricos no contexto sul-americano. Fabrício Alexandrino (2008) revisita os princípios que embasam o debate sobre os Estados fracassados e se debruça sobre a noção de construção de Estados (state-building), com base nas ideias de Francis Fukuyama. Bruno Quadros e Quadros (in PENNAFORTE, 2008) traça elementos preliminares para o exame dos efeitos dos Estados fracassados para o Brasil. Leandro Nogueira Monteiro (2006) é autor de um dos estudos mais completos sobre o assunto no Brasil, centrado no processo de construção do conceito de Estado fracassado e suas implicações para a Teoria das Relações Internacionais.


O texto acima é um trecho do artigo Os "Estados fracassados" sob uma visão brasileira: conceituação e elementos para a análise de seus desdobramentos securitários, que apresentei na Conferência Internacional Conjunta ISA-ABRI - "Diversidade e desigualdade na política mundial", realizada na PUC-Rio, no Rio de Janeiro, entre 22 e 24 de julho de 2009. Quem tiver interesse em ler o artigo na íntegra, clique aqui.

* Crédito da foto: Getty Images.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

I Fórum Centro-Oeste de Relações Internacionais (I FoCORI)


Data: 05, 06 e 07 de setembro

Local: Universidade de Brasília (UnB)


O Fórum Centro-Oeste de Relações Internacionais (FoCO RI) propõe-se a ser um novo espaço de fomento à pesquisa acadêmica em Relações Internacionais. A iniciativa procura criar um novo espaço que aproxime profissionais – praticantes, pesquisadores e professores da área – dos estudantes de graduação e pós-graduação. Assim, o FoCO RI almeja servir também como referência para o debate das relações internacionais contemporâneas sob o ângulo da pesquisa.

O evento intenta promover a aproximação entre os diversos centros de estudo na área de Relações Internacionais, além de incentivar o fortalecimento de uma cultura de debate, cooperação e produção acadêmica conjunta entre os estudantes de graduação e pós-graduação de Relações Internacionais de todos estes centros. Busca também estabelecer um espaço capaz de estimular discussões que possam contribuir para o ensino, a pesquisa e a prática profissional na área de relações internacionais no país.

Com a finalidade de alcançar os objetivos propostos, o evento contará com os seguintes trabalhos: mesas redondas, mini-curso e cine-debate durante os quais serão debatidas e apresentadas as várias fontes, técnicas e áreas de pesquisa em Relações Internacionais, com ênfase aos seguintes temas: Filosofia da Ciência, América do Sul, Estados Unidos e Segurança Internacional e BRICS.

A comissão organizadora é composta por estudantes universitários e conta também com a cooperação de professores e de instituições como o Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e o Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais do Ministério das Relações Exteriores. Faz-se importante ressaltar que, por ser um Fórum, o evento pretende realizar-se anualmente e deverá divulgar gratuitamente por meio eletrônico os principais produtos do evento.


Mais detalhes sobre o evento aqui.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Bolsas de estudos para pós-graduação no Canadá

Encontram-se abertas as inscrições para o Programa Vanier de Bolsas de Estudo de Pós-Graduação no Canadá. Este competitivo programa faz parte da estratégia de desenvolvimento científico-tecnológico e econômico do Canadá e visa atrair e reter estudantes de doutorado que se destaquem por suas realizações em pesquisas de pós-graduação nas áreas de ciências sociais e humanas, ciências naturais, engenharia e saúde, e que tenham capacidade de liderança.

A bolsa é de $50.000,00 dólares canadenses anuais, com duração de, no máximo, três anos e o processo de seleção está aberto a candidatos canadenses e internacionais.


Os candidatos serão avaliados pelo seu desempenho acadêmico e profissional, verificado por meio dos resultados acadêmicos, prêmios e distinções, programa de estudo e potencial contribuição para o avanço do conhecimento, experiências profissionais e acadêmicas relevantes, envolvimento com a comunidade, publicações, apresentações em conferências e cartas de recomendação.


Para concorrer a uma bolsa, os estudantes devem ter sua candidatura apresentada por uma universidade canadense que tenha cotas do Programa Vanier de Bolsas de Estudo de Pós-Graduação do Canadá. Os estudantes internacionais que não estejam matriculados em uma universidade canadense deverão definir em qual departamento e em qual universidade canadense, que esteja inserida no programa de cotas do Programa Vanier, desejam realizar seu doutorado e contatar os responsáveis e professores do referido departamento, manifestando seu interesse em candidatar-se à bolsa. Informações adicionais sobre o Programa Vanier podem ser obtidas no documento anexo, bem como no site www.vanier.gc.ca, incluindo os prazos para submissão de candidaturas.


Informações adicionais podem ser obtidas em:


Embaixada do Canadá


Assessoria para Assuntos de Educação


Tel.: (61) 3424-5425


E-mail: academic.bsb@international.gc.ca


Fonte: http://mundorama.net/2009/08/31/evento-bolsas-de-estudos-para-pos-graduacao-no-canada/

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Periódicos (I)



Esta é a primeira de uma série de postagens que serão feitas nos próximos meses, com indicações de periódicos nacionais e estrangeiros na área de Relações Internacionais. Começaremos pelos mais difundidos em nossa disciplina, o que não impede que tenhamos leitores que ainda não os conheçam. Sugestões são extremamente bem-vindas:

1)
Foreign Affairs
Fundada em 1922 e editada pelo poderoso
think tank norte-americano Council on Foreign Relations, é considerada a mais influente revista acadêmica de Relações Internacionais, com artigos e ensaios de chefes de Estado e personalidades proeminentes no cenário mundial, como George Kennan, Henry Kissinger e Barack Obama.
Idioma: Inglês
Editor: James F. Hoge, Jr.
Periodicidade: Bimensal
ISSN: 0015-7120


2)
Foreign Policy
Fundada em 1970 por Samuel Huntington, entre outros, a Foreign Policy transformou-se em uma revista dedicada ao público mais amplo, focando nas tendências do cenário internacional. Seu
website é alimentado diariamente por vários ensaios e reportagens sobre os aspectos mais instigantes da vida mundial. Vale dar uma olhada no Failed States Index e nos Top 10 sobre as coisas mais curiosas e inesperadas das relações internacionais (Ex: o recente Top 10 sobre as coisas mais loucas já ditas em um discurso na ONU).
Idioma: Inglês
Editor: Moisés Naím
Periodicidade: Bimensal
ISSN: 0015-7228

3)
Revista Brasileira de Política Internacional (RBPI)
Criada em 1958 pelo
Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI), a RBPI foi concebida com a missão de promover a reflexão, a pesquisa e o debate acadêmico sobre relações internacionais e sobre a política exterior do Brasil. É o mais antigo periódico brasileiro sobre o tema e abriga as contribuições da elite intelectual-acadêmica de RI do País.
Idioma: Português (artigos ocasionais em Espanhol e Inglês)
Editor: Antônio Carlos Lessa
Periodicidade: Semestral
ISSN: 0034-7329

Crédito da Foto:
Getty Images

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Declaração conjunta russo-israelense ou sobre como os Estados interpretam a História



President of Russia - Official Web Portal - August 18, 2009

Presidents of Russia and Israel condemned attempts to distort the history of World War Two, and deny the crime of the Holocaust and the enormous contribution of the Soviet Union in the victory over Nazi Germany.

Mr Medvedev and Shimon Peres adopted a joint statement in connection with the forthcoming 70th anniversary of the beginning of the Second World War.

The statement by the two presidents expresses their outrage at attempts to deny the enormous contribution of the Soviet Union in the victory over Nazi Germany and question the crime of the Holocaust. The leaders of Russia and Israel call for a strong ‘No’ in response to those who distort the tragic events and main outcome of the Second World War.

The statement notes that Jews fought together with Russians and other peoples of the Soviet Union in the Red Army, an army which played a key role in determining the outcome of the war, and that Russian and Jewish peoples fought together against Hitlerism and racism.

In his statement to journalists, Mr Medvedev emphasized that the distortion of history that favours given political scenarios or the heroization of Nazi collaborators is unacceptable.

According to Shimon Peres, Israel has a special relationship with Russia and will never forget Russia's contribution to the victory over Nazism. If it were not for Russia's participation in the war, the President of Israel said, the world was unlikely to have been able to defeat that threat.



Recebi hoje esta declaração da assessoria de imprensa do Presidente Medvedev, que pode ser acessada no site do Kremlin (http://www.kremlin.ru/eng/text/themes/2009/08/181947_220972.shtml). O que me chamou a atenção no texto é que ele esquece -- muito convenientemente, por sinal -- o arraigado anti-semitismo que existia na antiga União Soviética. Este é mais um exemplo de como os Estados interpretam seletivamente a História de acordo com os seus próprios objetivos políticos. Dessa forma, não é nem um pouco interessante rememorar os pogroms do Império Russo ou o envio de judeus aos gulags stalinistas, tudo em nome da amizade entre Tel-Aviv e Moscou.


* Crédito da Foto:
Getty Images.

domingo, 16 de agosto de 2009

Uma breve introdução aos partidos políticos mexicanos

Jesús Alejandro Alcantar Salinas*

No México são três os principais partidos políticos que repartem o poder: o PRI [Partido Revolucionario Institucional], o PRD [Partido de la Revolución Democrática] e o PAN [Partido Acción Nacional]. Há, também, outros partidos, porém, de pouca representação. Alguns deles são: o PT [Partido del Trabajo] e o Partido Verde Ecologista.
O PRI esteve na presidência do país durante mais de 70 anos sem interrupção alguma. Somente nas eleições federais do ano 2000 deixou “Los Pinos” [a residência do presidente mexicano]. É considerado um partido de centro, mas durante o transcurso dos anos tem adotado posturas muito liberais e outras mais de “esquerda”. Foi no governo priista de Carlos Salinas de Gortari (1988-1994) que foi assinado o “Tratado de Libre Comercio de América del Norte” ou NAFTA.
O PRD foi fundado no fim da década de 1980 por Cuauhtemoc Cárdenas, filho do ex-presidente mexicano Lázaro Cárdenas. No partido há diferentes correntes da “esquerda” mexicana. Nas ultimas eleições federais (2006), no momento de maior auge do partido, o candidato Andrés Manuel López Obrador perdeu por menos de 0,6% dos votos para o PAN.
O PAN foi fundado no fim da década de 1930 e o atual presidente mexicano, Felipe Calderón, pertence a este partido. É um grupo político de “direita”, mas dentro do partido há correntes de centro e de “extrema direita”. Tradicionalmente é ligado à Igreja Católica.
Nas eleições para presidente do ano 2000, o PAN foi a surpresa. A população mexicana elegeu o candidato panista Vicente Fox. Esta foi a melhor e única opção que os eleitores encontraram para poder tirar o PRI do poder. Após mais de sete décadas, o poder mudou de mãos. Aquelas foram umas eleições históricas!
Porém, o governo de Fox (2000-2006) passou com poucas conquistas. Foi um período sem grandes ações e muito controvertido pelas inumeráveis gafes do ex-presidente mexicano. Muito pelo contrário, teve uma política externa desastrada e muito alinhada com os interesses dos Estados Unidos. Teve vários impasses diplomáticos, entre eles com Cuba e Venezuela. A esperança de mudança em relação aos feitos do PRI nunca chegou. Foi mais um governo pouco marcante e sem avanços significativos.
A atual administração de Felipe Calderón (2006-2012) tem demonstrado algo diferente (ele pertence a um grupo menos radical e mais pragmático dentro do seu partido). Tem sido adotada uma política externa mais responsável e marcante, as políticas macroeconômicas não têm sido tão liberais quanto se esperava (com algumas exceções) e inclusive têm sido colocados em prática alguns projetos sociais que tinham sido idealizados por partidos políticos de “esquerda”. A principal “bandeira” deste governo tem sido a guerra ao tráfico de drogas.
No entanto, o aumento da violência gerada pelos confrontos entre cartéis de traficantes, polícia e exército e a má reputação do governo de Vicente Fox e outros governos estaduais em mãos dos panistas têm debilitado o Partido Acción Nacional.
O golpe mais forte ao PAN aconteceu nas eleições legislativas de 5 de julho passado, quando perdeu a maioria no Congresso. Mas Calderón e o seu partido perderem margem de manobra na política nacional não foi a principal surpresa. O que ninguém poderia imaginar há alguns anos no país aconteceu: o PRI se converteu novamente em maioria.
Após as eleições de julho, o PRI reapareceu fortalecido, não só por ter conseguido a maioria no Congresso Nacional, mas pelo fato de o PAN e o PRD, por causa da derrota e de vários assuntos internos e externos, estarem muito fragilizados.
Neste momento, o Partido Acción Nacional e o Partido de la Revolución Democrática estão muito divididos. Há uma disputa interna pelo poder dos partidos e as diferentes correntes estão se enfrentando e se responsabilizando pela derrota nas eleições. Nos dois partidos tem havido expulsões, mudanças de cargos internos e há amplos debates quanto ao seu rumo e objetivos.
Paralelamente à violência provocada pela guerra ao tráfico de drogas, estão os prejuízos da crise financeira e da gripe suína no país (queda do PIB) e a queda da produção da PEMEX [estatal mexicana do petróleo] e por consequência do orçamento do governo federal. Sem dúvida alguma, com tudo isto, o mais afetado será o PAN.
Portanto, uma coisa é certa: as eleições federais de 2012 vão ser disputadas, sem um partido político como favorito. Mas o PRI, como forca reestruturada, terá uma oportunidade real de disputar o poder. Da gestão atual do PAN vai depender muito o resultado que colocará um novo presidente no México daqui a três anos. Só resta esperar para poder ver e analisar o comportamento, as estratégias e os resultados dos três principais partidos políticos mexicanos que irão disputar a presidência da República em 2012.

* Analista internacional mexicano, é especialista nos assuntos relacionados à OEA e observador do cenário partidário e da política externa do México.

** Os créditos da foto são da Getty Images.

domingo, 19 de julho de 2009

O trabalho da OEA

A revogação da suspensão de Cuba da OEA e a crise política em Honduras têm estado em evidência nos últimos dois meses. Hoje teremos a honra de contar com um provocativo ensaio do analista internacional mexicano Jesus Alejandro Alcantar Salinas, que tem um posicionamento bastante crítico em relação ao papel da OEA no continente e à influência dos Estados Unidos na organização -- Salinas é especialista no estudo da suspensão de Cuba da OEA em 1962. Segue abaixo o ensaio:

Depois de mais de 60 anos de existência, o que a OEA fez de significativo no Continente Americano?
A anulação da “resolução 7”, que suspendeu Cuba da OEA, em 1962, somente confirmou a incompetência da organização e a enorme influência estadunidense nas suas decisões. A revogação da suspensão de Cuba, durante a XXXIX Assembléia Geral, no mês passado, juntamente com a condenação do golpe cívico-militar em Honduras, têm sido, além da Corte Interamericana de Direitos Humanos, os feitos mais importantes da OEA desde a sua criação.
No entanto, as manifestações no assunto cubano e hondurenho apenas foram um “ato simbólico”. Na prática tudo ficou igual. Mas, quem quer atos simbólicos? Mais de 60 anos de vida e a organização interamericana somente tem servido como espaço físico para a mediação de algumas crises e para o envio de algumas missões de observadores eleitorais. E que mais?
A OEA assistiu confortavelmente a todos os golpes na América Latina, a ingerência dos Estados Unidos na região, as crises continentais, o aumento da pobreza, e até os dias atuais não tem cumprido fielmente os princípios e objetivos da Carta Interamericana.
Então, qual é o sentido da sua existência? Por que não condenou os golpes na América Latina no século XX como fez há poucos dias no caso de Honduras? No entanto, não é suficiente somente condenar, precisamos de uma organização mais pragmática, altamente eficiente, que tenha decisões próprias, que seja contundente nas suas resoluções e que as faça valer.
A organização com sede em Washington só tem criado uma burocracia continental que assiste ao embargo econômico que os Estados Unidos mantêm a Cuba há quase 50 anos.
A OEA tem sido um mero instrumento de poder que serve aos interesses do governo estadunidense.
Por isto, não vejo que Cuba tenha sido reticente com a OEA ao se negar em voltar a participar no sistema interamericano. Não há muito sentido em participar. Quase não há benefícios ao participar na organização interamericana. O governo cubano é mais pragmático. As reuniões e discussões que acontecem em Washington podem ser feitas em qualquer lugar sem a necessidade de pertencer à OEA. Cuba está sendo realista.
Independentemente do desfecho da situação em Honduras e do papel de líder que a OEA assumiu no conflito, se esta Organização Internacional quiser ter um papel determinante e ser protagonista nas relações internacionais continentais, terá que trilhar por caminhos diferentes, com decisões independentes e determinantes e sem ingerência de qualquer país.
Acredito que o “novo momento” da política externa dos Estados Unidos pode ser aproveitado para a reformulação de uma OEA que seja muito mais eficiente da que temos visto nas últimas décadas.


Este ensaio nos inspira a fazer várias reflexões. Agora gostaríamos de saber o que o leitor acha sobre o tema. O papel da OEA é pernicioso e atentatório à democracia no continente? É a OEA um "joguete" da política externa dos EUA? Ou o pós-Guerra Fria permitiu uma nova abordagem nas relações entre a OEA, os EUA e os demais Estados americanos? Convidamos você leitor a deixar seus comentários sobre o assunto.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

"A Rússia hoje" -- Entrevista exclusiva com Angelo Segrillo (Parte III)


Reproduzimos abaixo a terceira e última parte da entrevista exclusiva concedida por Angelo Segrillo ao blog Urbi et Orbi:


Urbi et Orbi: Medvedev e o presidente norte-americano Barack Obama possuem muitos pontos em comum: ambos são líderes políticos muito jovens [Medvedev tem 43 anos e Obama, 47], detêm larga experiência no mundo acadêmico [Medvedev lecionou na Universidade de São Petersburgo entre 1991 e 1999 e Obama, na Universidade de Chicago entre 1992 e 2004] e são juristas. Como isso pode significar uma mudança nas relações russo-americanas em comparação com o período Putin-Bush?


Angelo Segrillo: Estas similaridades podem contribuir para criar um clima pessoal mais aconchegante entre os dois nas negociações. Não vão mudar a direção dos assuntos, estipulada por fatores objetivos externos, mas podem contribuir para acelerar ou desacelerar os processos que já estão indo em determinada direção.


Urbi et Orbi: Na imprensa brasileira, fala-se muito do potencial geopolítico e econômico dos BRIC's [acrônimo criado por Jim O’Neill, economista do banco de investimentos Goldman Sachs, para descrever as principais economias emergentes do mundo, representadas por Brasil, Rússia, Índia e China]. Quais são as reais perspectivas de avanço na parceria estratégica entre Brasil e Rússia? Quais os campos mais promissores e onde há desacordo entre Brasília e Moscou?


Angelo Segrillo: Apesar da retórica, a distância geográfica e os interesses globais diversos fazem com que o Brasil não seja uma prioridade da política externa russa (a recíproca é verdadeira, mas de maneira mais fraca). Assim, a tendência, se não houver fato novo, é manter um nível relativamente baixo de transações recíprocas, esquentadas de tempos em tempos por fatores conjunturais. Ao Brasil interessa a tecnologia russa aeroespacial, comércio com fertilizantes e equipamente bélico, etc. O Brasil vende principalmente carnes e diferentes produtos agrícolas. Há potencial para um incremento neste nível de trocas.



O momento da publicação desta entrevista reveladora com Angelo Segrillo sobre a Rússia é extremamente oportuno, em meio à visita de Obama a Moscou em 6 de julho e aos protestos internacionais em reação ao assassinato da ativista de direitos humanos russa Nataliya Estemirova.


E você, caro leitor? Qual a sua opinião sobre a situação da Rússia no mundo de hoje? A crise econômica mundial afetará irreversivelmente o crescimento da economia russa, baseado no petróleo? Moscou chegará a um entendimento com Washington na questão do escudo antimíssil na Europa Oriental? Faça seus comentários, afinal, a sua participação é extremamente importante para o nosso blog.


Os créditos da foto são da Getty Images.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

"A Rússia hoje" -- Entrevista exclusiva com Angelo Segrillo (Parte II)

Segue a segunda parte da entrevista exclusiva de Angelo Segrillo ao blog Urbi et Orbi:

Urbi et Orbi: Alguns observadores internacionais têm apontado um suposto "racha" entre o primeiro-ministro Vladimir Putin e o presidente Dimitri Medvedev em questões como direitos humanos e a crise econômica mundial. Isso é mera especulação ou há evidências concretas nesse sentido? Caso se confirme, qual seria o provável desdobramento de um conflito palaciano entre Putin e Medvedev para a política russa?

Angelo Segrillo: No tradicional espectro “ocidentalistas versus eslavófilos” (i.e., os russos pró-Ocidente e os que querem um caminho próprio, independente dos valores ocidentais), Medvedev é um pouco mais ocidentalista que Putin. Além disso, é menos gosudarstvennik (adepto de um estado forte) que Putin. Assim, há sim a possibilidade de diferenças ou mesmo desavenças entre os dois. Mas, por outro lado, são unidos por um longo tempo de convivência e parceria em comum. Assim, até agora a diarquia (com status sênior para Putin) tem funcionado sem grandes rachas e pode chegar ao final do mandato desta maneira. Caso haja um conflito palaciano, as conseqüências podem ser perigosas para a democracia russa, pois pode haver tentação de utilizar instrumentos autoritários para resolver a questão, já que a constituição russa é semipresidencialista e ambos têm poderes fortes em suas esferas de ação (o presidente nas relações exteriores e defesa/segurança e o primeiro-ministro na política interior).


Urbi et Orbi: A Guerra de Agosto de 2008 contra a Geórgia e os desacordos com a Ucrânia a respeito do fornecimento de gás natural demonstraram o quão problemáticas ainda são as relações de Moscou com os Estados pós-soviéticos. Tendo isso em mente, o senhor vê hoje um movimento de atração ou repulsão em relação à hegemonia russa sobre o espaço pós-soviético?

Angelo Segrillo: a relação das outras ex-repúblicas soviéticas com a Rússia tem variado com o tempo. Por exemplo, Belarus esteve muito próxima à Rússia no período Yeltsin e, surpreendentemente, no período Putin tem se afastado. Geórgia e Ucrânia também já estiveram mais próximas e se encontram bem afastadas. As repúblicas da Ásia central têm flutuado bastante no tempo, oscilando entre escoar seus recursos minerais através da rota mais direta para a Europa (através da Rússia) e diversificar sua clientela juntando-se em parcerias com países do Ocidente. Parecem fazer um jogo de gangorra entre Rússia e Ocidente para ver quem lhes oferece mais vantagens.


Os créditos da foto são da Getty Images.
Aguardem a terceira e última parte da entrevista, que será publicada em breve.