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domingo, 25 de setembro de 2011

Cuba: Por que Cuba?

Esta série de textos que hoje se inicia tem a proposta de compartilhar as impressões de minha viagem a Cuba, mas sob o olhar de um analista internacional, alguém que, pela própria formação profissional, deve ser extremamente sensível e observador a todos os detalhes, especialmente àqueles que passam despercebidos aos olhares mais apressados.

Fiquei em Cuba por duas semanas, entre o final de julho e o início de agosto de 2011. Permaneci a maior parte do tempo em Havana, mas fiz passeios de um dia a Pinar del Río e a Varadero. O objetivo maior da viagem foi manter-me o mais sintonizado possível com a realidade do país: lendo os jornais, assistindo aos noticiários, conversando com as pessoas, degustando os cartazes políticos na rua e decifrando as evidências não evidentes. O fato de eu ter ficado em uma “casa particular” em Habana Vieja permitiu um contato muito mais estreito com o povo cubano do que eu teria em um hotel ou um hostel, por exemplo.

Por que Cuba?

Cuba sempre despertou debates apaixonados. Tudo sobre a ilha é politizado ou politizável. Quando contei aos amigos de minha viagem, alguns chegaram a sugerir que eu seria “comunista”; alguns membros de minha conservadora família, por sua vez, alertaram-me de que eu só veria miséria e decadência por lá.

Desde criança, desconfio de tudo que é dito sobre Cuba. Desconfio dos relatos excessivamente laudatórios, que defendem que a ilha é o “paraíso socialista” da América Latina, de que são exemplos livros como “A Ilha” e “Fidel e a Religião”. Igualmente suspeito das críticas raivosas da imprensa nacional, que afirmam que Cuba é o reduto totalitário e miserável de uma utopia anacrônica e que aparecem semanalmente em revistas como “Veja”.

Em suma, não fui a Cuba buscando comprovar uma “tese”. Fui para aprender, para observar em que pé está a experiência cubana. É lógico que isso tudo tinha um senso de urgência, porque não se sabe quando essa experiência pode “acabar”. Então, assim que meu orçamento me permitiu, busquei realizar esse sonho de ver Cuba com meus próprios olhos.

Obviamente, a Cuba de Raúl Castro não é mais a Cuba dos subsídios soviéticos da época da Guerra Fria, nem a Cuba dos duríssimos anos 1990. As mudanças em Cuba são muito complexas, e creio que nem a população – e nem o governo – sabe ao certo o que está sendo criado ali. Pretendo, na medida do possível, relatar o que eu observei por lá.

Leia mais:

Como aquecimento, sugiro o delicioso texto do jornalista norte-americano Patrick Symmes, publicado na Folha de São Paulo. Symmes passou um mês em Cuba (sobre)vivendo com um salário de um cubano médio, e suas histórias são impressionantes. É o relato mais detalhado, realista e profundo do que Cuba é hoje. Leitura recomendadíssima!

domingo, 19 de julho de 2009

O trabalho da OEA

A revogação da suspensão de Cuba da OEA e a crise política em Honduras têm estado em evidência nos últimos dois meses. Hoje teremos a honra de contar com um provocativo ensaio do analista internacional mexicano Jesus Alejandro Alcantar Salinas, que tem um posicionamento bastante crítico em relação ao papel da OEA no continente e à influência dos Estados Unidos na organização -- Salinas é especialista no estudo da suspensão de Cuba da OEA em 1962. Segue abaixo o ensaio:

Depois de mais de 60 anos de existência, o que a OEA fez de significativo no Continente Americano?
A anulação da “resolução 7”, que suspendeu Cuba da OEA, em 1962, somente confirmou a incompetência da organização e a enorme influência estadunidense nas suas decisões. A revogação da suspensão de Cuba, durante a XXXIX Assembléia Geral, no mês passado, juntamente com a condenação do golpe cívico-militar em Honduras, têm sido, além da Corte Interamericana de Direitos Humanos, os feitos mais importantes da OEA desde a sua criação.
No entanto, as manifestações no assunto cubano e hondurenho apenas foram um “ato simbólico”. Na prática tudo ficou igual. Mas, quem quer atos simbólicos? Mais de 60 anos de vida e a organização interamericana somente tem servido como espaço físico para a mediação de algumas crises e para o envio de algumas missões de observadores eleitorais. E que mais?
A OEA assistiu confortavelmente a todos os golpes na América Latina, a ingerência dos Estados Unidos na região, as crises continentais, o aumento da pobreza, e até os dias atuais não tem cumprido fielmente os princípios e objetivos da Carta Interamericana.
Então, qual é o sentido da sua existência? Por que não condenou os golpes na América Latina no século XX como fez há poucos dias no caso de Honduras? No entanto, não é suficiente somente condenar, precisamos de uma organização mais pragmática, altamente eficiente, que tenha decisões próprias, que seja contundente nas suas resoluções e que as faça valer.
A organização com sede em Washington só tem criado uma burocracia continental que assiste ao embargo econômico que os Estados Unidos mantêm a Cuba há quase 50 anos.
A OEA tem sido um mero instrumento de poder que serve aos interesses do governo estadunidense.
Por isto, não vejo que Cuba tenha sido reticente com a OEA ao se negar em voltar a participar no sistema interamericano. Não há muito sentido em participar. Quase não há benefícios ao participar na organização interamericana. O governo cubano é mais pragmático. As reuniões e discussões que acontecem em Washington podem ser feitas em qualquer lugar sem a necessidade de pertencer à OEA. Cuba está sendo realista.
Independentemente do desfecho da situação em Honduras e do papel de líder que a OEA assumiu no conflito, se esta Organização Internacional quiser ter um papel determinante e ser protagonista nas relações internacionais continentais, terá que trilhar por caminhos diferentes, com decisões independentes e determinantes e sem ingerência de qualquer país.
Acredito que o “novo momento” da política externa dos Estados Unidos pode ser aproveitado para a reformulação de uma OEA que seja muito mais eficiente da que temos visto nas últimas décadas.


Este ensaio nos inspira a fazer várias reflexões. Agora gostaríamos de saber o que o leitor acha sobre o tema. O papel da OEA é pernicioso e atentatório à democracia no continente? É a OEA um "joguete" da política externa dos EUA? Ou o pós-Guerra Fria permitiu uma nova abordagem nas relações entre a OEA, os EUA e os demais Estados americanos? Convidamos você leitor a deixar seus comentários sobre o assunto.