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domingo, 8 de agosto de 2010

Análise: A Guerra de Agosto dois anos depois

800px-2008_South_Ossetia_war_en.svgO dia de hoje (08 de agosto) marca os dois anos do início do conflito que envolveu a Geórgia e Rússia. Enquanto as atenções do mundo estavam direcionadas para os Jogos Olímpicos de Pequim, os dois vizinhos do Cáucaso recorriam à força para resolver a controvérsia concernente ao status das regiões da Ossétia do Sul e da Abcásia. À época, uma poderosa guerra de informação empreendida pelos dois lados impediu uma avaliação sobre quem seria o “agressor” e a “vítima”. Baixada a poeira da guerra, uma comissão independente, chefiada pela diplomata suíça Heidi Tagliavini, elaborou um detalhado relatório buscando recuperar os dados referentes ao conflito. A conclusão do Relatório Tagliavini atribuiu aos dois lados a “culpa” pela guerra: à Geórgia, por ter iniciado os ataques às forças separatistas e às tropas de paz russas na Ossétia do Sul; e à Rússia, por ter provocado os georgianos e por ter respondido desproporcionalmente às investidas de Tbilisi.

Cabe a nós analisar as consequências desse importante conflito para as Relações Internacionais. Primeiro, em um tempo em que predominam os conflitos intraestatas e as chamadas “guerras assimétricas”, a Guerra de Agosto proporcionou um exemplo de conflito convencional clássico envolvendo dois Estados soberanos.

O conflito também foi uma demonstração de força por parte de Moscou, consequência do processo de ressurgência do país como poder mundial a partir dos anos 2000. Se em meados dos anos 1990, o governo de Boris Ieltsin era incapaz de derrotar os separatistas chechenos em seu próprio território, em 2008 a Rússia mostrou capacidade de mobilizar forças para um teatro de operações além de seu território.

A vitória russa garantiu a independêndia de facto das regiões da Ossétia do Sul e da Abcásia. A situação jurídica dessas duas regiões tem sido um dos pontos mais delicados do pós-guerra. A Rússia se vê aqui imersa na sua “síndrome de Kosovo”, alegando que deve ser dado à Ossétia do Sul e à Abcásia o mesmo tratamento que a comunidade internacional deu a Kosovo. O recente parecer da Corte Internacional de Justiça (CIJ) indicando a compatibilidade da independência de Kosovo com o Direito Internacional deve tornar a questão ainda mais incendiária para a estabilidade do Cáucaso e para as relações da Rússia com os Estados Unidos e a União Europeia.

Ao que tudo indica, o desfecho da guerra frustrou os planos de Putin – mas talvez não os de Medvedev – de derrubar o presidente georgiano Mikheil Saakashvili. Esse parece ter sido um dos objetivos da resposta em larga escala que Moscou empreendeu contra todo o território georgiano – e não apenas contra as duas regiões em disputa.

A derrota de Tbilisi sustou os objetivos da política externa ocidentalista do presidente Saakashvili: a adesão da Geórgia à OTAN e, possivelmente, à União Europeia. Ao mesmo tempo, silenciou o mais sério desafio à hegemonia russa sobre o seu “exterior próximo”. Ainda, transmitiu um recado muito claro às potências extrarregionais – nomeadamente, os Estados Unidos – de que elas não podem se imiscuir na região histórica de influência do Kremlin.

Por último, a reação desproporcional da Rússia ao estender as hostilidades por todo o território georgiano deve ser entendida dentro do contexto da geopolítica do petróleo da região. O oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC) foi concebido para garantir aos EUA e à Europa Ocidental o acesso às ricas reservas petrolíferas do Azerbaijão sem a necessidade de passar pela Rússia. Logo, as operações russas no território georgiano durante a Guerra de Agosto demonstraram a intenção de Moscou de influir no BTC, um dos mais importantes oleodutos que fazem o “bypass” sobre o território russo.

A Guerra de Agosto e o pós-guerra devem ser precisamente contextualizados na constelação de interesses dos agentes envolvidos. A “política de poder” (power politics) que levou a Rússia e a Geórgia à guerra deve ser entendida como a resultante desses interesses, sejam eles políticos, militares, econômicos ou de prestígio no sistema internacional.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Sugestões de leituras sobre política russa (Foreign Affairs)


What to Read on Russian Politics

Kathryn Stoner-Weiss

Senior Researcher and Deputy Director at the Center on Democracy, Development, and the Rule of Law at Stanford University’s Freeman Spogli Institute for International Studies.


Summary: An annotated Foreign Affairs syllabus on Russian politics.


Over the last two decades, observers of Russian politics have debated whether or not the country was a democracy under its first president, Boris Yeltsin, and what kind of autocracy it became under his successor, Vladimir Putin. Other key themes have been what exactly happened during the transition from communism and how to characterize the country's post-Soviet economy.

The Rise of Russia and the Fall of the Soviet Empire. By John B. Dunlop. Princeton University Press, 1995.

John Dunlop's account of the demise of the Soviet Union in the late summer and fall of 1991 is incomparable in its attention to detail, and it reveals a different Mikhail Gorbachev than the one usually depicted in the Western press -- portraying him not as a victim of a Keystone Cops coup attempt, but as a possible accomplice in the effort to depose him. Gorbachev might have been waiting to see who would emerge triumphant, Dunlop argues -- the State Committee on the State of Emergency (including members of his own Politburo) or Yeltsin, the newly elected president of the Russian Federation and Gorbachev's political nemesis.

Yeltsin: A Life. By Timothy J. Colton. Basic Books, 2008.

Timothy Colton's sweeping narrative of Yeltsin's life and political battles is unparalleled in its coverage of the political and personal journey of the founder of modern Russia. In Russia, Yeltsin has largely been reviled as a drunkard who conceded too easily to Western demands. He is also often blamed for the economic ills that befell the country in the 1990s. This biography provides a more nuanced view. Yeltsin's critics have argued that Colton is soft on his subject, but the book is actually relatively balanced and worth reading for the insights the author culled from unique interviews with Yeltsin and his family.

First Person: An Astonishingly Frank Self-Portrait by Russia's President. By Vladimir Putin, Nataliya Gevorkyan, Natalya Timakova, and Andrei Kolesnikov. PublicAffairs, 2000.

This is an informative short book of interviews with post-Soviet Russia's second president, offering a window onto his thinking and early career. When Putin was appointed prime minister by Yeltsin in August 1999 and then became acting president five months later, following Yeltsin's unexpected resignation, little was known about him. No books on his life were available, and few Russians had heard of him. To educate the public about its new leader (and help him win election as president in his own right in March 2000), the Kremlin set out to build up Putin's image. A select group of Russian journalists was given access for a series of interviews on Putin's life and beliefs, and this book is the result. Readers learn that Putin was as surprised as anyone to have been named Yeltsin's preferred successor, and he admits to having taken the job only on Yeltsin's insistence. Putin describes his KGB past and says he never quit the Communist Party when the Soviet Union collapsed in 1991, but rather quietly slipped his party card into his desk drawer.

Russia's Unfinished Revolution: Political Change From Gorbachev to Putin. By Michael McFaul. Cornell University Press, 2001.

Michael McFaul's book offers a broader discussion of the development of post-Gorbachev Russian institutions. He analyzes the unintended consequences of the simultaneous political and economic transitions in Russia, and, thanks to unprecedented access to key decisionmakers, the book is replete with insider reflections on the emerging political process. McFaul was recently appointed to the staff of the National Security Council as senior director for Russian and Eurasian affairs, so in addition to offering insights on Russia's difficult path away from communism, his analysis might hold some clues to the Obama administration's future policy toward Russia.

Democracy Derailed in Russia: The Failure of Open Politics. By M. Steven Fish. Cambridge University Press, 2005.

Where McFaul's book is largely an account of the early successes of Russian democracy, M. Steven Fish looks at the failures of the process. He blames them not on inert antidemocratic Russian political culture nor on the structural obstacles highlighted by modernization theory -- that is, the idea that Russian economic development was insufficiently advanced to generate the social changes required to support democracy. Instead, he points to institutional changes during the Yeltsin years, the lack of economic reforms, and the curse of an economy dependent on natural-resource exports.

How Capitalism Was Built: The Transformation of Central and Eastern Europe, Russia, and Central Asia. By Anders Åslund. Cambridge University Press, 2007.

Petrostate: Putin, Power, and the New Russia. By Marshall I. Goldman. Oxford University Press, 2008.

Few good books have been written on the fascinating and unpredictable course of Russian economic development. Two worthy of note, however, are Anders Åslund's How Capitalism Was Built and Marshall Goldman's Petrostate. Åslund is a longtime observer and analyst of the Russian economy who also served as an adviser to Russian policymakers in the early 1990s. His book provides an excellent overview of the uncertain road to economic growth in Eastern Europe in general and Russia in particular. Critics might argue that whatever economic system Russia has today, it is not capitalism, but Åslund provides compelling arguments as to how the system came about by describing the choices and mistakes made over the last 20 years. Goldman's Petrostate, meanwhile, is an account of Russia's largely post-Yeltsin economic boom. Written for a general audience as much as for scholars, the book focuses on Russia's role as the world's second-largest (after Saudi Arabia) exporter of crude oil. Goldman has had good access to policymakers and allows readers to get the flavor of how, say, the Russian gas giant Gazprom functions in practice. The book is particularly interesting to read now, as the country struggles with the drop in oil prices during a global economic recession.


COMENTÁRIOS DO URBI ET ORBI:

Recomendamos, com particular ênfase, o livro-entrevista de Putin Em Primeira Pessoa (em tradução livro do original russo Ot pervogo litsa, já que o livro ainda não foi publicado em português no Brasil), junto com o excelente artigo de Adi Ignatius para a Time (A Tsar is Born), que apresentou Putin como a Pessoa do Ano em 2007.

Digna de recomendação, também, é a obra de Marshall Goldman. Ele é considerado o maior especialista em economia russa e contribui frequentemente com artigos para a Foreign Affairs desde 1963, conforme pode se ver aqui.

Estamos aqui nos restringindo aos aspectos domésticos da Rússia. Considerações a respeito da literatura sobre a política externa da Rússia mereceriam mais umas duas ou três postagens em separado...


Adaptado de Foreign Affairs.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

"A Rússia hoje" -- Entrevista exclusiva com Angelo Segrillo (Parte III)


Reproduzimos abaixo a terceira e última parte da entrevista exclusiva concedida por Angelo Segrillo ao blog Urbi et Orbi:


Urbi et Orbi: Medvedev e o presidente norte-americano Barack Obama possuem muitos pontos em comum: ambos são líderes políticos muito jovens [Medvedev tem 43 anos e Obama, 47], detêm larga experiência no mundo acadêmico [Medvedev lecionou na Universidade de São Petersburgo entre 1991 e 1999 e Obama, na Universidade de Chicago entre 1992 e 2004] e são juristas. Como isso pode significar uma mudança nas relações russo-americanas em comparação com o período Putin-Bush?


Angelo Segrillo: Estas similaridades podem contribuir para criar um clima pessoal mais aconchegante entre os dois nas negociações. Não vão mudar a direção dos assuntos, estipulada por fatores objetivos externos, mas podem contribuir para acelerar ou desacelerar os processos que já estão indo em determinada direção.


Urbi et Orbi: Na imprensa brasileira, fala-se muito do potencial geopolítico e econômico dos BRIC's [acrônimo criado por Jim O’Neill, economista do banco de investimentos Goldman Sachs, para descrever as principais economias emergentes do mundo, representadas por Brasil, Rússia, Índia e China]. Quais são as reais perspectivas de avanço na parceria estratégica entre Brasil e Rússia? Quais os campos mais promissores e onde há desacordo entre Brasília e Moscou?


Angelo Segrillo: Apesar da retórica, a distância geográfica e os interesses globais diversos fazem com que o Brasil não seja uma prioridade da política externa russa (a recíproca é verdadeira, mas de maneira mais fraca). Assim, a tendência, se não houver fato novo, é manter um nível relativamente baixo de transações recíprocas, esquentadas de tempos em tempos por fatores conjunturais. Ao Brasil interessa a tecnologia russa aeroespacial, comércio com fertilizantes e equipamente bélico, etc. O Brasil vende principalmente carnes e diferentes produtos agrícolas. Há potencial para um incremento neste nível de trocas.



O momento da publicação desta entrevista reveladora com Angelo Segrillo sobre a Rússia é extremamente oportuno, em meio à visita de Obama a Moscou em 6 de julho e aos protestos internacionais em reação ao assassinato da ativista de direitos humanos russa Nataliya Estemirova.


E você, caro leitor? Qual a sua opinião sobre a situação da Rússia no mundo de hoje? A crise econômica mundial afetará irreversivelmente o crescimento da economia russa, baseado no petróleo? Moscou chegará a um entendimento com Washington na questão do escudo antimíssil na Europa Oriental? Faça seus comentários, afinal, a sua participação é extremamente importante para o nosso blog.


Os créditos da foto são da Getty Images.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

"A Rússia hoje" -- Entrevista exclusiva com Angelo Segrillo (Parte II)

Segue a segunda parte da entrevista exclusiva de Angelo Segrillo ao blog Urbi et Orbi:

Urbi et Orbi: Alguns observadores internacionais têm apontado um suposto "racha" entre o primeiro-ministro Vladimir Putin e o presidente Dimitri Medvedev em questões como direitos humanos e a crise econômica mundial. Isso é mera especulação ou há evidências concretas nesse sentido? Caso se confirme, qual seria o provável desdobramento de um conflito palaciano entre Putin e Medvedev para a política russa?

Angelo Segrillo: No tradicional espectro “ocidentalistas versus eslavófilos” (i.e., os russos pró-Ocidente e os que querem um caminho próprio, independente dos valores ocidentais), Medvedev é um pouco mais ocidentalista que Putin. Além disso, é menos gosudarstvennik (adepto de um estado forte) que Putin. Assim, há sim a possibilidade de diferenças ou mesmo desavenças entre os dois. Mas, por outro lado, são unidos por um longo tempo de convivência e parceria em comum. Assim, até agora a diarquia (com status sênior para Putin) tem funcionado sem grandes rachas e pode chegar ao final do mandato desta maneira. Caso haja um conflito palaciano, as conseqüências podem ser perigosas para a democracia russa, pois pode haver tentação de utilizar instrumentos autoritários para resolver a questão, já que a constituição russa é semipresidencialista e ambos têm poderes fortes em suas esferas de ação (o presidente nas relações exteriores e defesa/segurança e o primeiro-ministro na política interior).


Urbi et Orbi: A Guerra de Agosto de 2008 contra a Geórgia e os desacordos com a Ucrânia a respeito do fornecimento de gás natural demonstraram o quão problemáticas ainda são as relações de Moscou com os Estados pós-soviéticos. Tendo isso em mente, o senhor vê hoje um movimento de atração ou repulsão em relação à hegemonia russa sobre o espaço pós-soviético?

Angelo Segrillo: a relação das outras ex-repúblicas soviéticas com a Rússia tem variado com o tempo. Por exemplo, Belarus esteve muito próxima à Rússia no período Yeltsin e, surpreendentemente, no período Putin tem se afastado. Geórgia e Ucrânia também já estiveram mais próximas e se encontram bem afastadas. As repúblicas da Ásia central têm flutuado bastante no tempo, oscilando entre escoar seus recursos minerais através da rota mais direta para a Europa (através da Rússia) e diversificar sua clientela juntando-se em parcerias com países do Ocidente. Parecem fazer um jogo de gangorra entre Rússia e Ocidente para ver quem lhes oferece mais vantagens.


Os créditos da foto são da Getty Images.
Aguardem a terceira e última parte da entrevista, que será publicada em breve.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Essa é para quem acha que RI não é divertido!

Essa é para quem ainda acha que as RI's não têm graça.

Com um quê de teatralidade planejada sovieticamente, saiu hoje à tarde a notícia de que Vladimir Putin, que ainda não sabe se é presidente ou primeiro-ministro da Rússia, atirou um dardo tranqüilizante em um tigre siberiano que rondava jornalistas que o observavam -- quem ameaçava mais os jornalistas: Putin ou o tigre?

Há boatos de que o tigre tenha fugido do circo de Tbilisi, capital da Geórgia, em conseqüência da guerra. Chechênia, Litvinenko, Geórgia, o coitado do tigre... quem será agora o alvo da mira certeira da AK-47 de Putin?