domingo, 5 de julho de 2009

"A Rússia hoje" -- Entrevista exclusiva com Angelo Segrillo (Parte I)

Tornou-se lugar comum falar sobre a importância político-estratégica e econômica da Rússia no contexto internacional atual. O Kremlin tem influência em alguns dos temas mais explosivos da agenda mundial, como os programas nucleares do Irã e Coreia do Norte, a expansão da Otan e o sistema antimísseis dos EUA. Além disso, muito se fala de uma aproximação entre a Rússia e o Brasil, com base nas dimensões continentais dos dois países e em possíveis interesses comuns no cenário global.

Dos especialistas brasileiros dedicados aos Estudos Russos, Angelo Segrillo certamente tem um lugar de destaque, já que foi o primeiro historiador brasileiro a ter acesso aos arquivos da União Soviética após o esfacelamento do país em 1991, com artigos e livros publicados sobre os vários aspectos da sociedade russa, entre eles O declínio da URSS: um estudo das causas e Rússia e Brasil em Transformação. Segrillo possui Mestrado em Língua e Literatura Russa pelo Instituto Pushkin de Moscou e Doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e escreve regularmente para a imprensa brasileira sobre assuntos ligados à Rússia.

O Urbi et Orbi reproduz com exclusividade a primeira parte da entrevista concedida por Angelo Segrillo a este blog sobre a situação doméstica e internacional da Rússia de hoje:

Urbi et Orbi: Os críticos mais exaltados dos governos de Vladimir Putin [2000-2008] e Dimitri Medvedev [2008-...] tendem a retratá-los como uma continuação das práticas administrativas soviéticas, acusando-os de corrupção e autoritarismo. Em que medida as gestões Putin e Medvedev representam uma continuidade e uma ruptura em relação à experiência soviética e à história política russa?

Angelo Segrillo: Putin foi um participante do aparato soviético (de segurança, ainda por cima). Assim, é natural que guardasse certas atitudes da época anterior. Medvedev já é produto de uma nova era, mas como é ligado ao grupo de Putin, mantém atitudes em comum, com um viés um pouco menos dogmático. Mas seria forçar a barra ir muito além na continuidade com o período soviético em si. Talvez o grande fio condutor seja o conceito de gosudarstvennost´, que inclui uma concepção de um estado sólido como condição necessária para o florescimento da sociedade russa. Esta concepção (bem diferente do liberalismo ocidental) vem desde a época czarista, perpassando o período soviético e continuando até os dias atuais. Acho que é sobre esta linha tradicional e antiga russa que se pode estabelecer elementos de continuidade, mais do que simplesmente com o período soviético, que era um período anticapitalista.


Urbi et Orbi: A crise econômica mundial atingiu a Rússia em cheio. O país está enfrentando altas taxas de inflação e o seu principal produto de exportação, o petróleo, está sofrendo uma severa desvalorização no mercado internacional. Quais são as opções na mesa para os líderes russos superarem a dependência do petróleo e diminuírem a vulnerabilidade econômica externa do país?

Angelo Segrillo: A única solução para diminuir a dependência do petróleo, que é uma riqueza tão grande e abundante na Rússia, é a diversificação da economia procurando sair da esfera dos recursos minerais para as manufaturas de maior valor agregado. Não é um caminho fácil devido à dura competição internacional, mas a Rússia tem o principal elemento para caminhar neste sentido: um capital humano de nível educacional alto.

domingo, 21 de junho de 2009

As paradas militares do Dia da Vitória como elemento de análise da política externa da Federação Russa

As comemorações do Dia da Vitória, em 8 de maio, data em que os Aliados derrotaram as forças nazi-fascistas do Eixo na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), estendem-se todos os anos pelo planeta. As gerações mais jovens podem ter dificuldades para apreender o significado da celebração desta data relativamente "remota" para elas. Já para os mais velhos, principalmente aqueles que eram nascidos quando os combates ocorreram, a derrota do nazi-fascismo simbolizou o triunfo da liberdade sobre a tirania corporificada pela Alemanha nazista e seus aliados. À parte as diferentes percepções geracionais sobre o conflito, o fato é que o 64º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial ainda permanece muito presente na memória coletiva dos países que nela participaram, além de fazer parte da trajetória da vida de muitas pessoas.

Em meio às comemorações ao redor do globo, as que são realizadas na Rússia – onde a data é celebrada em 9 de maio – certamente merecem o maior destaque. Em primeiro lugar, em função da contribuição decisiva e do sacrifício humano e material oferecidos pela União Soviética para a derrota dos exércitos de Hitler. O Den' Pobedy, como é conhecido o Dia da Vitória na Rússia, é feriado nacional em todo o país. Desde 1946, a Praça Vermelha tem sido palco de paradas militares no Den' Pobedy, que se tornaram célebres durante a existência da União Soviética pela exibição do que havia de mais moderno nas Forças Armadas soviéticas. Com o esfacelamento do socialismo, as comemorações continuaram de modo mais modesto, condizentes que estavam com a deteriorada situação econômica, social e política da jovem Federação Russa. Os primeiros anos do século XXI contrastaram brutalmente com a década de noventa, na medida em que a Rússia recuperava a sua economia com taxas significativas de crescimento do PIB, proporcionadas pelo aumento no preço do petróleo e do gás natural exportados pelo país. Em 2008, com o presidente Dimitri Medvedev já no poder, a parada do nove de maio foi a primeira desde 1990 a exibir armamentos pesados, como os mísseis balísticos intercontinentais (ICBM's), tão temidos durante a Guerra Fria (O GLOBO, 2008, on-line).

A análise das paradas militares do Dia da Vitória em Moscou nos permite traçar algumas comparações históricas. Durante a Guerra Fria, a natureza fechada do regime socialista obrigava os chamados kremlinólogos (especialistas nas relações políticas dentro do governo da União Soviética) a buscar nos vídeos das paradas do nove de maio evidências, como a posição dos líderes na tribuna de honra e a menção de nomes e cargos nos discursos, a fim de se ter uma ideia da correlação de forças dentro do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), além de analisar o estado de suas Forças Armadas por meio da observação dos armamentos exibidos no desfile. Por outro lado, atualmente o caráter de "vitrine" dos desfiles do nove de maio tem sido incrementado pela maior cobertura dada pela imprensa internacional. Isto permite à Rússia, entre outras coisas: consolidar o sentimento de união nacional com base nas vitórias militares obtidas na Segunda Guerra Mundial; imprimir na população a noção de um Estado forte que zela pela memória histórica e pelo aperfeiçoamento das Forças Armadas enquanto elemento fundamental da segurança nacional; e transmitir mensagens de cunho político a determinados Estados ou à comunidade internacional como um todo. É este último aspecto que abordaremos com mais profundidade a seguir, com base em discursos de autoridades russas e reportagens jornalísticas.

Como adiantado acima, os desfiles também fornecem elementos para a análise da evolução da posição russa com relação aos acontecimentos internacionais que a afetam direta e indiretamente. Comparemos as paradas militares de 2005 e 2009. A primeira ocorreu sob a presidência de Vladimir Putin, enquanto que a segunda se deu sob o mandato de Dimitri Medvedev. Em 2005, as comemorações na Praça Vermelha contaram com a presença de vários líderes nacionais, como George W. Bush (Estados Unidos), Gerhard Schroeder (Alemanha), Jacques Chirac (França), José Luiz Rodríguez Zapatero (Espanha), Sílvio Berlusconi (Itália), Viktor Yushchenko (Ucrânia), Hu Jintao (China), Manmohan Singh (Índia) e Junichiro Koizumi (Japão), e com o desfile de veteranos de guerra dos diversos fronts. Em 2009, por sua vez, os festejos não foram acompanhados por dignitários das outras grandes potências e não contaram com o desfile dos veteranos, restringindo-se às Forças Armadas regulares e apresentando o armamento mais pesado desde o fim da União Soviética (G1, 2009, on-line). Na ocasião, o presidente Medvedev defendeu a composição de um novo e amplo tratado de segurança para a Europa e declarou que a vitória na Segunda Guerra Mundial “é uma lição que ainda é relevante hoje, quando mais uma vez há aqueles que estão interessados em embarcar em aventuras militares” e que “[...] qualquer agressão contra nosso povo encontrará uma resposta adequada [...]” por parte da Rússia (MEDVEDEV, 2009, on-line). Basta lembrarmos que entre 2005 e 2009, ocorreram eventos que deterioraram sensivelmente as relações da Rússia com o Ocidente e especialmente com os Estados Unidos, como o impasse no fornecimento de gás natural à Ucrânia e à Europa Ocidental, as discussões sobre a inclusão da Geórgia e da Ucrânia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a insistência norte-americana na instalação de um escudo antimíssil na Polônia e República Tcheca, a declaração de independência de Kosovo e a Guerra de Agosto de 2008 entre a Rússia e a Geórgia. É dentro deste contexto de desgaste das relações entre o Kremlin e o Ocidente e de ascensão de uma política externa mais assertiva por parte de Moscou que se inserem as diferentes abordagens nas paradas de 2005 e 2009 e a retórica mais inflamada por parte do presidente Medvedev. A comparação também pode ser traçada em outro plano: em 2005, com a presença de chefes de Estado e de governo de vários países, o desfile nos mostra que a vitória sobre o Eixo foi o fruto de um esforço conjunto de uma comunidade de nações, ali presentes para celebrar o feito; já em 2009, a mensagem é radicalmente diferente, de que somente a Rússia foi a responsável pelo triunfo sobre a Alemanha hitlerista, prescindindo desta forma da presença de representantes dos demais Estados na tribuna de honra da parada militar.

O exemplo das paradas militares do Dia da Vitória na Rússia é instrutivo de como os Estados utilizam o poder simbólico e a projeção midiática de eventos específicos para transmitir mensagens de cunho político-diplomático e estratégico-militar aos demais Estados e à comunidade internacional. Com certeza este tema merece um estudo mais aprofundado por parte da academia brasileira de Relações Internacionais.


REFERÊNCIAS:

G1. Medvedev preside maior desfile militar desde a queda da URSS. Disponível em: [http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1114835-5602,00-MEDVEDEV+PRESIDE+MAIOR+DESFILE+MILITAR+DESDE+A+QUEDA+DA+URSS.html]. Acesso em: 10/05/2009.

MEDVEDEV, Dimitri. Speech at Military Parade in Honour of 64th Anniversary of Victory in Great Patriotic War. Disponível em: [http://www.kremlin.ru/eng/speeches/2009/05/09/1501_type127286_216101.shtml]. Acesso em: 10/05/2009.

O GLOBO. Rússia faz primeiro desfile com mísseis na Praça Vermelha desde 1990. Disponível em: [http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2008/05/09/russia_faz_primeiro_desfile_com_misseis_na_praca_vermelha_desde_1990-427298607.asp]. Acesso em: 10/05/2009.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Office of the Historian Announces New Website: www.history.state.gov

Office of the Historian Announces New Website: www.history.state.gov
Office of the Spokesman
Washington, DC
June 18, 2009


The Department of State is pleased to announce the official unveiling of the Office of the Historian’s new website: www.history.state.gov.

The new website boasts greater accessibility and searching within the Foreign Relations of the United States documentary series. It currently offers both textual and facsimile copies of Foreign Relations volumes from the Kennedy Administration through the Nixon-Ford administration. The Office plans to continue to digitize older volumes and eventually house all of the Foreign Relations volumes on its website. The website also contains updated sections on the history of the Department of State, biographies of notable diplomats, and an in-depth timeline of United States diplomatic milestones. The Office’s educational curriculum guides are also downloadable from the website. The Office hopes that through its enhanced presentation and organization, the new website will become the preeminent online resource for U.S. diplomatic history.

domingo, 24 de maio de 2009

O que significa ser diplomata?

Seguem abaixo algumas passagens célebres sobre o ofício diplomático:

1) "Diplomacy: The patriotic art of lying for one's country."

Ambrose Bierce


2) "A diplomat... is a person who can tell you to go to hell in such a way that you actually look forward to the trip."

Caskie Stinnett, Out of the Red (1960)


3) “Para enganar um diplomata fale a verdade. Ele não tem experiência com ela."

Provérbio grego


4) “A diplomat's life is made up of three ingredients: protocol, Geritol and alcohol.”

Adlai E. Stevenson

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Ensaio-manifesto por um paradigma autenticamente brasileiro das Relações Internacionais

A instituição do curso de Relações Internacionais no Brasil é relativamente recente, datando de 1974, com a formação do primeiro curso na Universidade de Brasília (UnB). Não obstante, durante esses 35 anos formou-se uma massa crítica nos circuitos militares, diplomáticos e acadêmicos, que passou a exercer pressão social para a construção de uma teoria das Relações Internacionais sob o prisma brasileiro. Apesar disso, a preponderância do tradicional debate anglo-saxão entre idealismo e realismo – só atualmente animado pelas contribuições de paradigmas emergentes, como o construtivismo, por exemplo – de certa forma sufocou uma produção teórica autóctone, configurando o que Amado Luiz Cervo chamou de “pensamento sem teoria”.

Como ponto de partida para a ereção de um paradigma autenticamente brasileiro das Relações Internacionais, podemos considerar os seguintes elementos, que podem perfeitamente se juntar a muitos outros, dependendo das escolhas metodológicas de cada estudioso:

• o “acumulado histórico” da diplomacia brasileira (o pacifismo, o juridicismo, o realismo/pragmatismo etc.) conforme Cervo o concebe;

• as teses geopolíticas formuladas no Brasil e para o Brasil por pensadores como Therezinha Castro e Golbery do Couto e Silva; e

• a condição de “dependência” estrutural latino-americana, de acordo com as teses de Celso Furtado e Theotonio dos Santos, para quem o país encontra-se na periferia do sistema mundial do capitalismo devido às assimetrias históricas do comércio e da economia internacionais.

Enfim, o status do Brasil como “potência média” e como pólo economicamente emergente dentro de um sistema internacional de tendência multipolar torna pedra angular a formação de uma teoria brasileira das Relações Internacionais. Só ela legará aos tomadores de decisão brasileiros uma perspectiva em consonância com a nossa realidade nacional, com o objetivo último de formular uma política externa defensora dos interesses nacionais em uma “era dos gigantes”, como diria Samuel Pinheiro Guimarães.

sábado, 9 de maio de 2009

Evento: Conferência Internacional Conjunta ISA-ABRI - "Diversidade e desigualdade na política mundial"

CONFERÊNCIA INTERNACIONAL CONJUNTA - "Diversidade e desigualdade na política mundial"

COORDENADORES GERAIS: JOÃO PONTES NOGUEIRA (PUC – Rio) e KAREN A. RASLER (Indiana University)


Organização: International Studies Association (ISA) e Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI)


Realização: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC – Rio)Instituto de Relações Internacionais


Cidade: Rio de Janeiro, RJ, Brasil


Data: 22-24 de julho de 2009


Local: Campus da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC – Rio)

As profundas mudanças ocorridas no sistema internacional com o fim da Guerra Fria alimentaram esperanças de um mundo mais integrado, pacífico e próspero. No entanto, em seu lugar, surgiram conflitos permeados por segmentações culturais, étnicas e religiosas apontando uma nova e perigosa dinâmica no sistema internacional. Permanecem, contudo, dúvidas importantes se soluções positivas para esses conflitos podem ser oferecidas pelas instituições multilaterais com base em um consenso crescente sobre os valores básicos e fundamentais da sociedade internacional. Ao mesmo tempo, a globalização da economia política internacional falhou em difundir um crescimento econômico mais justo e a incorporar sociedades mais pobres ao mercado mundial, conforme alguns entusiastas haviam previsto anteriormente. A crescente tomada de consciência sobre tais desigualdades sociais na política global justifica expectativas de que a questão permaneça uma prioridade na agenda das instituições multilaterais num futuro próximo e de que o progresso se dê gradativamente.

Enquanto isso, questões de diferenças étnicas e de identidade se cruzam com desigualdades sociais e econômicas em um número crescente de conflitos contemporâneos. Sem reduzir uma coisa a outra, um número cada vez maior de acadêmicos de RI consideram os aspectos culturais da política uma das explicações para a exclusão da maioria da população mundial em relação aos benefícios trazidos pelo desenvolvimento econômico. Outros acadêmicos, no entanto, focam nas dimensões estruturais associadas aos ambientes material e institucional como uma das razões para o crescente conflito dentro e entre países e regiões, em termos religiosos, étnicos e culturais. Na América Latina, por exemplo, mudancas politicas recentes em alguns países demonstraram o papel das identidades políticas de populações marginalizadas, como os indígenas, na reestruturação dos estados e suas economias. Este encontro tem como objetivo promover futuras discussões que explorem as questões da diversidade e desigualdade por meio de enquadramentos analíticos integrados.

Outro tópico central deste encontro é analisar como os desdobramentos da política internacional depois de 2001 contribuíram na formação de processos que fragmentaram o sistema internacional em visões de mundo competitivas e produziram profundas e desestabilizadoras assimetrias de poder. Por exemplo, um número crescente de pesquisadores e especialistas têm abordado os desafios da ordem e justiça mundiais reafirmando a necessidade de tratar as desigualdades nas relações Norte-Sul e defendendo alianças alternativas Sul-Sul que busquem o equilíbrio com uma única superpotência. Além disso, os novos dirigentes políticos têm enquadrado o problema da diversidade e pluralidade na política mundial como uma oportunidade para contestar a universalidade das instituições democráticas e liberdades individuais ao estilo ocidental. A forma como e por que essas questões têm surgido na comunidade global constitui uma importante área de pesquisa.

Como campo, as Relações Internacionais se expandiram consideravelmente para além de sua região norte-americana. Um número crescente de estudiosos, instituições acadêmicas e associações surgiram nas últimas duas décadas, dando início a um processo gradual, apesar de ainda desigual, de inclusão de contribuições provenientes de diversas partes do mundo, aos debates da disciplina. Esse processo se reflete na significativa internacionalização das convenções anuais da ISA, na criação da World International Studies Committee (WISC) e na organização de um número cada vez maior de conferências internacionais e regionais – todas as quais contribuíram para um animado intercâmbio entre acadêmicos do mundo inteiro.

A conferência conjunta da ISA/ABRI é a primeira deste tipo na América do Sul e tem como objetivo principal estimular o intercâmbio entre acadêmicos latino-americanos e a comunidade global da área de estudos internacionais. Além de incentivar uma forte representação regional, este encontro é também uma oportunidade para a participação de acadêmicos caribenhos e africanos.

Texto retirado e adaptado de http://www.isanet.org/rio2009.

Mais informações no Blog Oficial do Evento e no site da ABRI.

domingo, 26 de abril de 2009

Algumas reflexões sobre a concepção do sistema internacional para Henry Kissinger

Em artigo publicado no Washington Post em 22 de abril, o ex-Secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger expôs a sua análise da política externa do Presidente Barack Obama em seus primeiros 100 dias de governo, tratando especificamente dos desafios relacionados ao Irã e à Coreia do Norte (e, por extensão, ao regime de não-proliferação nuclear).

Contudo, o mais interessante do artigo são suas previsões a respeito do sistema internacional (SI). Lá, Kissinger (que é considerado um dos grandes expoentes da vertente realista da Teoria das Relações Internacionais) sintetiza toda a concepção do SI que já havia abordado ao longo de seu célebre livro Diplomacy -- especialmente no primeiro capítulo, em que contrapõe as visões norte-americana e europeia do SI. Segundo suas previsões, o SI das primeiras décadas do século XXI terá vários Estados com "poderes" (ou "capacidades" como querem os neo-realistas) relativamente nivelados, que partilharão as responsabilidades da manutenção da ordem mundial. Até aqui, nada de muito original, pois não é preciso grande exercício profético para perceber que o SI está caminhando rumo à multipolaridade. No entanto, a diferença está na comparação histórica que Kissinger faz entre o possível SI do século XXI e o Concerto Europeu pós-napoleônico. Esta análise, embora ocupe somente algumas linhas do referido artigo, pode ser aprofundada a partir do que Kissinger abordou em Diplomacy.

Eu tive a oportunidade de conhecer Henry Kissinger pessoalmente durante uma conferência internacional sobre o bicentenário das relações diplomáticas entre Rússia e Estados Unidos, que aconteceu em Moscou em novembro de 2007. Na palestra magna que proferiu na Spaso House -- residência do embaixador norte-americano na Rússia, que na ocasião era William J. Burns, hoje Subsecretário de Estado para Assuntos Políticos, o número 3 na hierarquia do Departamento de Estado --, Kissinger falou de sua experiência no trato com os soviéticos e compartilhou suas reflexões a respeito do SI. Perguntei-lhe se, em linhas gerais, o SI das próximas décadas se assentaria sobre bases predominantemente econômicas ou cultural-civilizacionais. Após um aparente embaraço inicial, o qual ele resolveu asseverando que se tratava de sua opinião pessoal (e não uma opinião do ex-funcionário do Departamento de Estado e muito menos um posicionamento do governo dos EUA), Kissinger disse, entre outras coisas, que aspectos políticos seguirão sendo importantes no mundo do futuro, exemplificando que mecanismos como a sanção a um determinado Estado (como o embargo dos EUA a Cuba) continuarão a ser um fator impeditivo para o aprofundamento da interdependência econômica.

sábado, 21 de março de 2009

Futebol e Nacionalismo - II

Gostaria de compartilhar alguns comentários adicionais sobre a relação entre o futebol e o nacionalismo, assunto que iniciei ontem.
Na postagem anterior, relatei o episódio em que torcedores russos fizeram uma provocação a seus homólogos suecos relembrando uma grande vitória militar de seu país, ocorrida há três séculos. É incrível como o orgulho nacional de um povo pode sustentar uma memória histórica tão sólida e vasta! Penso se algo parecido poderia acontecer no Brasil. É como se nós hasteássemos um gigantesco retrato do Almirante Barroso em uma partida contra o Paraguai, relembrando aos paraguaios a vitória brasileira na Batalha do Riachuelo (1865); ou, ainda, é como se nós desfraldássemos, em pleno estádio Maracanã, uma cópia (em tamanho natural) do óleo sobre tela de Victor Meirelles retratando a Batalha dos Guararapes (1648/1649) em um jogo contra os holandeses.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Futebol e Nacionalismo

Como apaixonado por futebol e pelas Relações Internacionais que sou, acabo por inclinar-me naturalmente ao estudo das relações entre estes dois elementos aparentemente incompatíveis (futebol e RI's). Em outras palavras, busco as dimensões em que o futebol deixa de ser um jogo disputado por 22 jogadores e se torna sociologia, história, política, economia e cultura. Não tenho dúvidas de que voltarei a este tema em um futuro próximo, mas hoje tratarei especificamente das interações entre o futebol e o nacionalismo.
Não é preciso ler as obras de Ernest Gellner e Benedict Anderson para perceber que os estádios são um canal de transmissão de nacionalismos. Neste sentido, engana-se quem acha que o futebol -- e, por extensão, o esporte -- pode ser separado da política e também do nacionalismo. Os exemplos da simbiose entre o "esporte bretão" e o nacionalismo abundam ao longo da História, tendo servido de instrumento de legitimação para regimes políticos como os de Hitler, Mussolini, Franco, entre muitos outros, não esquecendo jamais do Brasil de 1970 e da Argentina de 1978. Além disso, foi por meio do futebol que sentimentos nacionalistas longamente reprimidos foram liberados: basta lembrarmos do papel que o FC Barcelona e o Athletic de Bilbao representam para as comunidades catalã e basca, respectivamente.
Eu poderia cansá-los com mais uma dúzia de exemplos, mas me limito a relatar um acontecimento que muito me surpreendeu no ano passado. Foi ao assistir ao jogo entre Rússia e Suécia, na Eurocopa. Quando da execução dos hinos nacionais, os torcedores russos desfraldaram uma gigantesca bandeira com o retrato do tsar Pedro, o Grande. Creio que esta cena, riquíssima em seu significado, passou despercebida à esmagadora maioria dos telespectadores, mas não aos russos e suecos de maior bagagem cultural. Tal bandeira lembrava aos suecos da vitória russa na Batalha de Poltava de 1709, decisiva para o desfecho da Grande Guerra do Norte em favor dos exércitos de Pedro.
Naquele exato momento, convenci-me de que futebol é, antes de tudo, história e cultura. Que não me deixem mentir os presentes ao Estádio Tivoli Neu, em Innsbruck, na Áustria, que por sinal assistiram a outro triunfo da Rússia sobre os suecos.
Crédito da Foto: Anton Denisov, RIA Novosti.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Sugestões Luso-Brasileiras - I

A partir de hoje passaremos a postar sugestões de blogs, sítios, revistas e outros canais para o aprendizado e debate dos temas internacionais.
Nesta postagem, percorremos o mundo luso-brasileiro para trazer um pouco do "estado da arte" das Relações Internacionais -- algumas das sugestões já encontram-se no item "Sítios Relevantes" deste blog:

1) InfoRel (http://www.inforel.org/) = sediado em Brasília, é especializado em temas relacionados à política externa brasileira e defesa nacional. O veículo, que completará cinco anos em 2009, é bastante aberto para artigos e análises de acadêmicos (o próprio autor deste blog começou sua trajetória acadêmica com publicações no InfoRel). Os seus editores têm um bom relacionamento com a comunidade diplomática de Brasília, assim como com o Ministério da Defesa e das Relações Exteriores.

2) Jornal Defesa e Relações internacionais (http://www.jornaldefesa.com.pt/) = fundado por militares portugueses, este jornal tem uma ênfase muito clara nas questões de segurança, principalmente a OTAN. Também é aberto a contribuições, que são imediatamente incluídas no site. O jornal vem estreitando o relacionamento com os brasileiros -- a participação de autores deste lado do Atlântico é cada vez mais freqüente.

3) Radar do Sistema Internacional (http://rsi.cgee.org.br/) = produzido pelo Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, reúne diversos materiais sobre quatro eixos temáticos (Direitos Humanos, Integração Regional, Segurança Internacional e Economia Política). Talvez seja um dos locais onde está a maior concentração da produção brasileira em temas internacionais.
4) O Debatedouro (http://www.odebatedouro.org/) = criado por estudantes mineiros de Relações Internacionais, publica análises de altíssima qualidade, até mesmo sobre os mais avançados debates teóricos da disciplina.

5) The Economist, "O mundo em 2009", edição Dezembro/08-Janeiro/09 = a edição brasileira, licenciada para Carta Capital, saiu com uma seção especial sobre Meio Ambiente e com vários artigos sobre os mais variados assuntos que poderão ter importância em 2009. É interessante ver como praticamente todas as áreas do globo estão cobertas com pelo menos uma matéria da revista. The Economist é uma das poucas publicações que possui a coragem -- ou a "pachorra", como diriam alguns -- de estabelecer prognósticos para o ano vindouro. Dou uma dica: guarde a revista com carinho até 1º de janeiro de 2010, não só por sua qualidade, mas para ver o grau de acerto de suas previsões. Não tenho dúvidas de que será divertido.

Convidamos os leitores a postarem mais sugestões nos comentários!